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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Quando o mal vira refrão

 

Por Jânsen Leiros Jr.

A normalização da violência como expressão de amor, mina aos poucos a compreensão do que cada atitude é, em si e em verdade.

            Há algo profundamente perigoso quando a violência começa a ser cantada como se fosse prova de amor. Quando uma letra afirma que alguém ama tanto outra pessoa que, se não for sua, não será de mais ninguém — e essa afirmação vem acompanhada da imagem simbólica de uma arma apontada para quem decide ir embora — já não estamos mais no campo da metáfora inofensiva. Estamos diante da normalização do mal.

            O problema não é a arte retratar o lado sombrio da experiência humana. A arte sempre fez isso. O problema surge quando o mal deixa de ser denunciado e passa a ser romantizado, embalado por melodias cativantes, refrões repetíveis e performances carismáticas. Nesse ponto, a violência não é apresentada como tragédia, mas como intensidade emocional. Como se o ciúme extremo, a posse absoluta e a ameaça fossem expressões legítimas — até desejáveis — do amor.

            É assim que o mal se torna cotidiano: não chega gritando, chega cantando.

            Ao ser repetido, dançado, compartilhado e celebrado, esse discurso vai se dissolvendo na sensibilidade coletiva. A ideia de que “quem ama controla”, “quem ama não aceita ser deixado”, “quem ama prefere destruir a perder” passa a soar menos absurda. E quando isso acontece, a fronteira moral se desloca perigosamente.

            Hannah Arendt chamou esse processo de banalidade do mal — não porque o mal seja pequeno, mas porque ele passa a ser praticado sem espanto, sem reflexão, sem resistência interior. Não é mais percebido como algo que exige ruptura ética, mas como parte do jogo da vida, das emoções, das relações.

            No caso dessas narrativas musicais, o que se banaliza é algo gravíssimo:

  • a ideia de que o outro não tem direito de ir,
  • de que o afeto autoriza a posse,
  • de que a dor da rejeição legitima a ameaça.

            Isso não é amor. É violência emocional com estética de romance.

            A cultura tem um poder formador enorme, especialmente quando alcança milhões de pessoas. Ela ensina — ainda que de forma implícita — o que é aceitável sentir, desejar e fazer. Quando a violência é apresentada como resposta compreensível ao abandono, cria-se um ambiente simbólico que reduz o choque moral diante de comportamentos reais semelhantes. E isso tem consequências concretas, sobretudo em uma sociedade que já convive com altos índices de violência contra a mulher.

            Do ponto de vista ético e até teológico, isso é uma inversão perigosa. Amor, em qualquer tradição minimamente séria, está ligado à liberdade do outro, não à sua anulação. Na linguagem bíblica, o amor “não busca os seus próprios interesses” e “não se alegra com a injustiça” (1 Coríntios 13). Onde há ameaça, medo e coerção, o amor já foi substituído pelo desejo de domínio.

            Naturalizar o mal é isso: transformar o que deveria causar repulsa em algo emocionalmente aceitável. É trocar o discernimento moral pelo entretenimento acrítico. É permitir que o perigo vista a fantasia do sentimento profundo.

            Por isso, não, não é “só música”.

            É discurso.

            É pedagogia emocional.

            É formação de imaginário.

            E toda vez que deixamos de questionar esse tipo de mensagem, damos mais um pequeno passo rumo a uma sociedade que confunde paixão com violência — e intensidade com destruição.

quinta-feira, 13 de março de 2025

O Espectro da Conspiração e a Instrumentalização da Justiça

 

Por Jânsen Leiros Jr.

Na esteira de denúncias que têm sacudido o cenário político brasileiro, o Procurador da República apresentou uma acusação ousada: Jair Bolsonaro e mais 33 indivíduos estariam envolvidos em um suposto plano de golpe, que chegaria até a contemplar a intenção de assassinato – não apenas de Lula, mas também de Alexandre de Moraes. Essa denúncia, com sua carga de dramaticidade, insere-se num contexto de polarização extrema, onde as narrativas oficiais se confundem com interesses políticos e a linha entre defesa da ordem democrática e instrumentalização da Justiça se torna perigosamente tênue.

Ao desconstruir essa versão dos fatos, somos convidados a questionar o que, de fato, pode estar por trás de tais acusações. Inspirando-nos em pensadores como Michel Foucault, que explorou como o poder molda a produção do conhecimento, e Hannah Arendt, que alertou para os perigos do totalitarismo velado, percebemos que as “verdades” emanadas dos tribunais muitas vezes carregam em si elementos de uma narrativa construída para legitimar determinadas ações ou para marginalizar adversários. Nesse sentido, a denúncia não pode ser encarada de forma simplista: por um lado, se comprovadas, as evidências apontam para uma ameaça real à ordem democrática; por outro, há o risco iminente de que a própria denúncia seja utilizada como instrumento de politização da Justiça.

Especialistas divergem quanto às implicações desse processo. Alguns defendem que, caso os indícios se confirmem, a prisão de um ex-presidente – somada à aplicação de medidas de inelegibilidade, previstas na Lei da Ficha Limpa – representaria um divisor de águas no sistema político nacional, sinalizando uma resposta contundente a tentativas de subversão da ordem democrática. Outros, no entanto, alertam para o perigo de que tais investigações possam ser capturadas por interesses políticos, transformando o processo em uma ferramenta para silenciar opositores e aprofundar a polarização.

A complexidade do sistema judicial brasileiro, permeado por influências históricas e políticas, impõe um desafio singular: distinguir o que é evidência robusta de práticas autoritárias do que pode ser uma narrativa manipulada para fins de controle. Assim, as chances de que Jair Bolsonaro seja efetivamente preso e declarado inelegível dependerão não apenas da consistência das provas apresentadas, mas também da capacidade do sistema de resistir a pressões externas e de operar com a imparcialidade necessária.

Essa análise nos obriga a olhar além da superfície dos fatos, buscando compreender as intersecções entre poder, política e a construção das “verdades” oficiais. O debate que emerge dessas denúncias revela não apenas os riscos de um ambiente marcado por extremismos e interesses divergentes, mas também a urgência de fortalecer mecanismos que garantam a transparência e a justiça em um cenário onde a instrumentalização dos processos judiciais pode ser tão prejudicial quanto qualquer ato de subversão.

Em última análise, a discussão que se impõe é a de que, para que a democracia se mantenha sólida, é imprescindível que as investigações sejam conduzidas com rigor e autonomia. Somente assim será possível desvendar, com clareza, se por trás desse suposto plano há, de fato, uma trama concreta de golpe e violência, ou se estamos diante de uma manobra política que visa simplesmente reconfigurar os contornos do poder.